De uma só vez, meu corpo todo encontrou a água. Gelada, cortante. Num mergulho rápido sem pensar, sem sentir. Os neurônios fizeram questão de, freneticamente, fazerem correr e ocorrer sinapses tentando desesperadamente avisar meu corpo da sensação desagradável de navalha rasgando a carne que o gelado tem sobre a pele quente. Era fácil ignorar qualquer dor, qualquer desagrado físico com as ideias tentando passar a um milhão de quilômetros por hora, num congestionamento desesperado digno do rush do centro às seis da tarde.
Tentei manter nos pulmões o máximo possível de ar que eles pudessem armazenar a fim de me manter completamente imersa pelo tempo que pudesse. Dizem que a água ameniza o impacto. Acho que era isso que eu esperava que ela fizesse por mim, pelas minhas decisões, pelos meus sentimentos que insistiam em variar, às vezes não chegando a um minuto entre um extremo e outro.
Será que tu sabes como é isso? Sentir tantas coisas em relação a alguém, ter sensações mutáveis que não hesitam em passar quase que acompanhando a velocidade do som? O som sempre foi uma conexão forte entre a gente. Muito de tudo em comum. Talvez por isso as coisas relacionadas a ti sejam tão breves e fortes. Como o som. Algo tão breve e que, no entanto, pode se manter como uma memória nítida, uma marca de ferida cicatrizada.
Começa a me faltar o ar e o rush de ideias não pára. As sinapses não falham: me doem as extremidades do gelo da água. E me dói o peito de pensar na parte gelada de ti, que por vezes chega a me eriçar os pelos do corpo.
O fato de as ideias não clarearem, nem com a luz que, refletida pelo líquido, parece mais intensa, é quase desesperador. Perdi o controle sobre o que eu sinto, sobre o que eu devo sentir. Perdi o controle da situação há muito tempo. Perdi agora o controle sobre meu corpo, não consigo mais sentir minhas pernas ou meus braços, adormecidos pelo gelo. Sinto que perco aos poucos o controle da consciência. A água entra nos pulmões, substituta do ar, e me sinto impotente, sem poder esboçar qualquer reação de buscar a superfície. Os sentidos vão ficando leves, embriagados. Fica difícil perceber o que se passa e algum tipo de devaneio, confuso como nunca, toma conta da minha mente. A luz se atenuando aos poucos parece que apaga junto com ela qualquer dor. Tudo fica leve, leve
leve
lev
le
l
...
até eu acordar cuspindo água e perceber que tudo permanece exatamente igual.
Escultor
22 horas atrás
