11 Abril, 2011

mergulho

De uma só vez, meu corpo todo encontrou a água. Gelada, cortante. Num mergulho rápido sem pensar, sem sentir. Os neurônios fizeram questão de, freneticamente, fazerem correr e ocorrer sinapses tentando desesperadamente avisar meu corpo da sensação desagradável de navalha rasgando a carne que o gelado tem sobre a pele quente. Era fácil ignorar qualquer dor, qualquer desagrado físico com as ideias tentando passar a um milhão de quilômetros por hora, num congestionamento desesperado digno do rush do centro às seis da tarde.
Tentei manter nos pulmões o máximo possível de ar que eles pudessem armazenar a fim de me manter completamente imersa pelo tempo que pudesse. Dizem que a água ameniza o impacto. Acho que era isso que eu esperava que ela fizesse por mim, pelas minhas decisões, pelos meus sentimentos que insistiam em variar, às vezes não chegando a um minuto entre um extremo e outro.
Será que tu sabes como é isso? Sentir tantas coisas em relação a alguém, ter sensações mutáveis que não hesitam em passar quase que acompanhando a velocidade do som? O som sempre foi uma conexão forte entre a gente. Muito de tudo em comum. Talvez por isso as coisas relacionadas a ti sejam tão breves e fortes. Como o som. Algo tão breve e que, no entanto, pode se manter como uma memória nítida, uma marca de ferida cicatrizada.
Começa a me faltar o ar e o rush de ideias não pára. As sinapses não falham: me doem as extremidades do gelo da água. E me dói o peito de pensar na parte gelada de ti, que por vezes chega a me eriçar os pelos do corpo.
O fato de as ideias não clarearem, nem com a luz que, refletida pelo líquido, parece mais intensa, é quase desesperador. Perdi o controle sobre o que eu sinto, sobre o que eu devo sentir. Perdi o controle da situação há muito tempo. Perdi agora o controle sobre meu corpo, não consigo mais sentir minhas pernas ou meus braços, adormecidos pelo gelo. Sinto que perco aos poucos o controle da consciência. A água entra nos pulmões, substituta do ar, e me sinto impotente, sem poder esboçar qualquer reação de buscar a superfície. Os sentidos vão ficando leves, embriagados. Fica difícil perceber o que se passa e algum tipo de devaneio, confuso como nunca, toma conta da minha mente. A luz se atenuando aos poucos parece que apaga junto com ela qualquer dor. Tudo fica leve, leve

leve

lev

le

l

...

até eu acordar cuspindo água e perceber que tudo permanece exatamente igual.

19 Setembro, 2010

do nosso envolvimento.

Sempre acho que te vejo me despir com os olhos no meio da multidão e sutilmente fazer muito de qualquer coisa que me excita. Quase não posso conter minhas ações. Meus devaneios, cheios de vontade dolorida, de depravações desesperadas, querem transbordar e tocar teu corpo, chegar aos teus ouvidos do melhor jeito que sabem. Deita comigo no sossego de um fim-de-noite frio; encaixa teu corpo no meu, como se não houvesse outra coisa; me abraça, me morde e me beija o pescoço, arrepiando cada um dos pelos do meu corpo. Gosto do teu suor misturado ao meu e de tu me deixar assim, febril, nesse frio que fica lá fora. Tua boca me beijando os ombros e tuas mãos me percorrendo o corpo fazem meu coração bater mais rápido e eu não conseguir ouvir mais nada. Meus músculos todos se contraem, sinto frio na barriga e ganas inexplicáveis com tua língua variando entre meus seios e meu ventre. Tira a minha roupa e me rende, me ganha, me submete com esse jeito tão teu de me dar delírios ferventes. Aperta forte meu corpo no teu e me fala no ouvido o que sabe que eu quero ouvir. Me deixa tremendo, ofegante, suada, esgotada e querendo mais, sempre. Não canso de ti, do teu corpo, do teu jeito de me fazer tua. Não posso evitar, quase não controlo meus ímpetos e vontade de - como se fosse possível - te trazer mais pra perto, mais pra junto, mais pra dentro de mim. Esse teu sorrisinho sacana de canto de boca, então, só me dá mais vontade de ti. Minhas ações substituem as palavras e tu sabe, tem a certeza de que eu não poderia ser mais tua do que ali, naquela cama, naquele chão, naquele qualquer lugar.
Depois descanso em teu peito enquanto me acaricias a nuca e me beija a boca com maestria. Exausta, não consigo distinguir qual dos corações, esforçados de tanto, é o que bate com mais força.


(ao som de Led Zeppelin - Since I've been loving you)

15 Setembro, 2010

lights down low

essa minha mania
de apagar a luz de cima noite e dia
foi recurso pra evitar que,
enquanto lentamente me despia,
percebesse que arrancava e desfazia
cada defesa vadia que tentei pra nos separar.

19 Junho, 2010

eu quero a sorte de um amor tranquilo...

14 Junho, 2010

"Toco tu boca,

con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua."

(Rayuela - Cap. 7 - Julio Cortázar)

10 Junho, 2010

o quereres



não consigo parar de ouvir [2]

09 Junho, 2010

coração vagabundo



não consigo parar de ouvir

07 Junho, 2010

tic-tac

o tempo insistia em voar enquanto dançávamos sem música
segurando os copos que estiveram antes cheios.
ele sempre faz isso, voar, quando o que eu mais quero é ficar
admirando e me perdendo nos teus grandes olhos
e medindo o quanto de sorriso cabe na tua boca macia e bem desenhada.

05 Junho, 2010

livre

faz-te em mim o vento
brisa quente de verão
que ao roçar-me a pele
e surgir-me aos olhos
me arrepia
e me invade
e me desnuda
e me faz nascer à alma poesia muda.
faz-te em mim o vento
de delicadeza intensa o sopro
e me faz ter quente o corpo
de tuas mãos de tanto mar;
incendeio
devaneio
e te quero porque, livre, assim te gosto...

...meu vento de doces dizeres.

04 Junho, 2010

hai-kai

meu peito se rende
à vontade vertente
efeito do toque certeiro e sutil.

31 Maio, 2010

(para miguel baierle)
minha consciência feita de cores
de tantos amores
de tons maiores e tons de azul
te gosto por perto
te penso de certo
sem norte e sem sul
e mesmo assim
se perco o senso
teu azul denso
me traz de volta
me dita a rota
me faz feliz.

26 Maio, 2010

rua da república.

esse frenesi cardíaco
toda vez que meus olhos te veem
insiste em me lembrar sempre
do meu desejo não declarado de ti.
fica mais (aqui comigo).

25 Maio, 2010

e na verdade

o coração segue vazio.

24 Maio, 2010

de esquina

Fingi que andava em frente decidida, sem olhar pra trás, quando a gente se despediu ali naquela esquina. Foi pura mentira. Fiquei espiando de canto de olho o tempo suficiente pra te ver me olhando, virando pra me olhar, enquanto atravessava a rua meio desatento. Daí fico aqui cheia das tuas músicas e dos teus hábitos incorporados em mim, pensando e relembrando cada detalhe e querendo a tua boca e o teu jeito de me olhar no fundo da alma.
Devia ter virado pra te olhar de volta.

20 Maio, 2010

rima pós-debate

que me desculpem aqueles
que se sintam por isso ofender
mas não me conformo com o jeito
e o tempo e a falta de ver.
levantam bandeiras p'raqueles que, falsos,
querem às custas do falho os bolsos encher.
são cegos, ingênuos
ou não querem mesmo é se comprometer?

[e não há prova, retorno ou satisfação.]

desculpem que nada,
se hipócritas é o que querem ser.
vendam a alma pra um grande veículo,
garantam o seu e vão se foder.

19 Maio, 2010

breve prosa em sol maior.

Criei coragem e fechei a porta que, havia muito, permanecia aberta atrás de mim. Então foi tudo escuro. Nada podia ver. Tudo que tocava parecia disforme e sem sentido e o chão sob meus pés não era palpável. A sensação era de que, a qualquer momento, pisaria em um espaço formado por areia movediça e sentiria o fosso tomar-me lentamente do ar respirável. Havia saído do que há tempos me era habitual. Definitivamente não estava mais em um ambiente conhecido. Podia sentir as sombras me rodeando e, por vezes, cacos de vidro, pregos e brasas me arrasando a sola dos pés. Era difícil prosseguir, mas eu insistia. Minha insistência resultou em arranhões e feridas abertas nas quais parecia que me enfiavam o dedo com vontade, repetidamente. Depois de um tempo, senti as feridas se fecharem - dando lugar a pequenas cicatrizes - e passei a enxergar um pontinho de luz lá adiante. Corri em direção a ele, percebendo se tratar de, não um, mas diversos buracos de fechadura através dos quais transbordava aos pouquinhos uma luz quente, de veludo. Tentei a chave pendurada em meu pescoço em cada um deles, até que pude abrir uma porta. Era uma grande e bela porta - pude ver bem quando a abri e a luz entrou -, muito diferente da que eu fechara lá atrás. Atravessei-a sem muita confiança, mas certa de que o que viria me seria mais agradável aos sentidos do que o que havia deixado às minhas costas. A luz, amarela e calorosa, acariciava meu rosto de leve como se fosse brisa quente de verão. E me cegava. Nada podia ver novamente, mas a sensação era muito distinta. Era macio e quente e me doía de tão bonito. Não fazia ideia de onde pisava, mas me sentia acarinhada e tranquila. Por vezes havia dúvida e algum tipo de desconforto, mas logo vinha de novo a sensação com cores de sol e me invadia e tomava meu corpo para si. O ar podia, eventualmente, ser pesado e difícil de respirar, mas senti que, de alguma forma, era válido o esforço. Agora já até enxergo alguns contornos. Me assusto com eles vez que outra, mas sigo vagando com calma, tateando com as pontas dos dedos, e descobrindo aos poucos o que essa luminosidade me traz. Não tenho mais forças para ficar longe dela, eu acho.

(ao som de Sérgio Sampaio - Magia Pura)

27 Março, 2010

ch-ch-changes

partindo dos cantinhos pra não borrar e não sobrar nada
bem devagarinho com cuidado de perito
vou passar uma borracha numa parte de mim
e reinventar tudo de um jeito que eu goste mais.

pronto, cabô.

11 Março, 2010

admito

vários vieram desde a última vez em que tu saiu por essa porta

(e parece que eu ainda to ali parada te esperando voltar.)

11 Janeiro, 2010

todo cuidado é pouco

quando as voltas da tua presença íngreme provocam cada parte de mim do melhor jeito que sabem.

25 Outubro, 2009

preciso aprender a controlar minhas ganas antes que eu apanhe de alguém :P

15 Outubro, 2009

the late late blues

hoje acordei pensando em ti. fazia um tempo - pelo menos uns meses - que isso não acontecia. rendeu-me um sorriso discreto no rosto, daqueles em que não se mostra os dentes. rendeu-me junto uma nostalgia triste, carregada de confusões internas. o dia tá cinza, dia de disco do kings of leon. esse disco de que eu tanto gosto nunca nos deu sorte. ficava triste de não ouvir mais ele contigo, mas toda vez em que a gente tentou teve alguma dor. engraçado isso. fazia tanto tempo que eu não pensava em ti desse jeito, mesmo que tivesse te encontrado na véspera. da última vez quem foi indiferente fui eu. deixei ao vento cada olhar e cada toque teu e quase troquei teu nome num sentimento ridículo de fidelidade a algo que nem existia. sempre fui um tanto fria contigo, do jeito que não costumo ser. acho que eu tinha medo. medo de que fosse sério, de que fosse de verdade. que bobagem.

13 Outubro, 2009

nada como uma terça-feira de sol pra acabar com o sentimentalismo que a chuva do feriado trouxe.

Fé - Postagem Temática

Deuses, santos, destino, astrologia, bruxaria, sorte.
Peço sincero perdão a quem possa ofender,
mas, desse tipo, fé não me diz tanto, não.
Muito mais daquele que,
de olhos nos olhos a mãos que se encaixam,
verdades bem ditas e sonhos trocados permitem
aquilo que muito se quer, por mais que escondido: acreditar.
Nesse sentido ela preenche lacunas, provoca sorrisos,
colore os dias da gente.
___________________

Esse texto faz parte da Postagem Temática.

24 Agosto, 2009

10 Agosto, 2009

acho que às vezes as coisas acontecem - ou começam e acabam - rápido demais pra compensar a intensidade.

03 Agosto, 2009

o meu amor

tem um jeito manso que é só seu
e que me deixa louca quando me beija a boca
a minha pele toda fica arrepiada
e me beija com calma e fundo
até minh'alma se sentir beijada
o meu amor tem um jeito manso que é só seu
que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
com tantos segredos lindos e indecentes
depois brinca comigo, ri do meu umbigo
e me crava os dentes
eu sou sua menina, viu? e ele é o meu rapaz
meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
o meu amor tem um jeito manso que é só seu
que me deixa maluca, quando me roça a nuca
e quase me machuca com a barba mal feita
e de pousar as coxas entre as minhas coxas
quando ele se deita
o meu amor tem um jeito manso que é só seu
de me fazer rodeios, de me beijar os seios
me beijar o ventre e me deixar em brasa
desfruta do meu corpo como se o meu corpo
fosse a sua casa

(chico buarque)

15 Junho, 2009

mais, quero mais
nem que todos os barcos recolham ao cais
e os faróis da costeira me lancem sinais
arranca, vida
estufa, vela
me leva, leva longe
longe, leva mais.

02 Junho, 2009

3. gana

impetuosidade, vontade extrema.

29 Maio, 2009

simples.

quero teu corpo,
(o resto do texto que tinha aqui passará por reforma sentimental. aguarde.)

23 Maio, 2009

redredred.

ai, que vontade de arrancar esse blusão vermelho.

04 Maio, 2009

entende:

eu sei que eu tô fazendo tudo errado.
mas, juro, tudo que eu faço é na vontade de acertar.

17 Abril, 2009

3 .

não importa o tempo e
não importa onde e
nem me importa mais a hora;
vem.
me sorri assim de novo e eu te beijo
sem pensar, sem medir, nada -
te beijar seria a coisa mais fácil e
mais doce/quente/inexplicável
depois de um sorriso assim.
vem?
me morde, tu sabe que eu gosto,
e me conta qualquer coisa pra me fazer rir;
quero as linhas todas do teu corpo;
o travesseiro ao lado sente tua falta;
vem.

2 .

euteadoro.
implico contigo e essas coisas
porque é meu jeito de dizer isso,
(que eu te adoro).
queria ter visto tuas cores todas
no escuro, na luz baixinha vinda da rua
ou de qualquer jeito que fosse.
anytime, anywhere contigo;
não muda nada, me deixa amanhecer assim
te adorando.