12 agosto, 2008
mais um romance underground.
daí a gente sentou numa sarjeta qualquer da independência com os nossos copos de cerveja nas mãos (acho que era heineken ou stella artois - uma dessas que, pra quem vive de brahma e polar, são meio burguesas) e tu começou a falar. a cerveja - amarga - me descia muito bem e me mantinha levemente ébria enquanto ouvia teu discurso impressionante sobre mil coisas do mundo. reparei que tu tinha mãos grandes e bonitas (sempre reparo nas mãos) e que uma covinha se fazia presente na bochecha esquerda quando tu abria um sorriso tímido, a coisa mais querida do mundo. o cabelo levemente bagunçado e uma sombra de barba por fazer faziam com que tu ficasse menos menininho, mais homem. me olhava nos olhos como se me enxergasse a alma e me fazia, por muitas vezes, sentir a timidez que eu não tinha tomar conta de mim e fazer com que as minhas bochechas ficassem vermelhas. entendia um monte de música, livros e filmes e volta e meia me tirava as palavras da boca falando de algum jazzista ou escritor das antigas. gostava tanto quanto ou mais do que eu de discos de vinil e de filmes em preto e branco. teu leve sexismo me irritava e eu falava mil coisas pra discordar de ti, mas tua habilidade com as palavras me fazia quase suspirar e eu acabava deixando pra lá. o desenho da tua boca, o jeito como tu segurava o copo e como vez que outra botava o meu cabelo pra atrás da orelha quando caia no rosto fizeram parte dos pequenos detalhes que eu gravo pra sempre e me deram vontade de tar junto o tempo todo, bem pertinho. pensei que queria deitar num sofá contigo e ficar abraçada em ti, ouvindo tudo aquilo que tu tinha pra dizer e te dizendo coisas que me parecessem importantes. os nossos amigos que tavam na volta se enjoaram do diálogo inacabável – só a gente falava, quase que discutindo, sem dar chance pros outros – e foram fazer qualquer outra coisa. continuamos conversando por mais uns bons minutos – e os amigos iam e voltavam repetidas vezes – e cada vez mais tu me encantava com o teu jeito tão articulado e tímido ao mesmo tempo. não sorrir de canto de boca quando te olhava nos olhos se tornou uma tarefa impossível pra mim e, quando tu tocava meu ombro ou meu rosto, eu ficava dividida entre uma timidez bastante tensa e uma vontade quase incontrolável de te abraçar e trazer pra perto. numa pausa dramática de quase 30 segundos de a gente se olhando nos olhos bem de perto, um quase beijo é interrompido por alguém muito bêbado te pedindo um ‘careta’. daí a gente levanta pra pegar mais uma ceva, tu me abraça, me olha sorrindo e diz a frase da qual a gente tinha tirado sarro durante um bom tempo no começo da noite: “pra minha casa ou pra tua?”. eu, sorrindo de volta absolutamente boba, respondo a única coisa que cabia: “pra tua, ouvir aquele vinil da janis que vai mudar as nossas vidas pra sempre”. e assim foi.
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