31 maio, 2010

(para miguel baierle)
minha consciência feita de cores
de tantos amores
de tons maiores e tons de azul
te gosto por perto
te penso de certo
sem norte e sem sul
e mesmo assim
se perco o senso
teu azul denso
me traz de volta
me dita a rota
me faz feliz.

25 maio, 2010

e na verdade

o coração segue vazio.

24 maio, 2010

de esquina

Fingi que andava em frente decidida, sem olhar pra trás, quando a gente se despediu ali naquela esquina. Foi pura mentira. Fiquei espiando de canto de olho o tempo suficiente pra te ver me olhando, virando pra me olhar, enquanto atravessava a rua meio desatento. Daí fico aqui cheia das tuas músicas e dos teus hábitos incorporados em mim, pensando e relembrando cada detalhe e querendo a tua boca e o teu jeito de me olhar no fundo da alma.
Devia ter virado pra te olhar de volta.

20 maio, 2010

rima pós-debate

que me desculpem aqueles
que se sintam por isso ofender
mas não me conformo com o jeito
e o tempo e a falta de ver.
levantam bandeiras p'raqueles que, falsos,
querem às custas do falho os bolsos encher.
são cegos, ingênuos
ou não querem mesmo é se comprometer?

[e não há prova, retorno ou satisfação.]

desculpem que nada,
se hipócritas é o que querem ser.
vendam a alma pra um grande veículo,
garantam o seu e vão se foder.

19 maio, 2010

breve prosa em sol maior.

Criei coragem e fechei a porta que, havia muito, permanecia aberta atrás de mim. Então foi tudo escuro. Nada podia ver. Tudo que tocava parecia disforme e sem sentido e o chão sob meus pés não era palpável. A sensação era de que, a qualquer momento, pisaria em um espaço formado por areia movediça e sentiria o fosso tomar-me lentamente do ar respirável. Havia saído do que há tempos me era habitual. Definitivamente não estava mais em um ambiente conhecido. Podia sentir as sombras me rodeando e, por vezes, cacos de vidro, pregos e brasas me arrasando a sola dos pés. Era difícil prosseguir, mas eu insistia. Minha insistência resultou em arranhões e feridas abertas nas quais parecia que me enfiavam o dedo com vontade, repetidamente. Depois de um tempo, senti as feridas se fecharem - dando lugar a pequenas cicatrizes - e passei a enxergar um pontinho de luz lá adiante. Corri em direção a ele, percebendo se tratar de, não um, mas diversos buracos de fechadura através dos quais transbordava aos pouquinhos uma luz quente, de veludo. Tentei a chave pendurada em meu pescoço em cada um deles, até que pude abrir uma porta. Era uma grande e bela porta - pude ver bem quando a abri e a luz entrou -, muito diferente da que eu fechara lá atrás. Atravessei-a sem muita confiança, mas certa de que o que viria me seria mais agradável aos sentidos do que o que havia deixado às minhas costas. A luz, amarela e calorosa, acariciava meu rosto de leve como se fosse brisa quente de verão. E me cegava. Nada podia ver novamente, mas a sensação era muito distinta. Era macio e quente e me doía de tão bonito. Não fazia ideia de onde pisava, mas me sentia acarinhada e tranquila. Por vezes havia dúvida e algum tipo de desconforto, mas logo vinha de novo a sensação com cores de sol e me invadia e tomava meu corpo para si. O ar podia, eventualmente, ser pesado e difícil de respirar, mas senti que, de alguma forma, era válido o esforço. Agora já até enxergo alguns contornos. Me assusto com eles vez que outra, mas sigo vagando com calma, tateando com as pontas dos dedos, e descobrindo aos poucos o que essa luminosidade me traz. Não tenho mais forças para ficar longe dela, eu acho.

(ao som de Sérgio Sampaio - Magia Pura)