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09 dezembro, 2008

down em mim.

a noite era uma dessas quentes de verão. fazia calor lá fora, calor na cozinha, no banheiro, nos corredores, nas paredes do meu quarto; e, por mais calor que fizesse, não queria teu corpo longe do meu nem por um segundo. eles - os corpos - se confundiam e o meu suor escorria pelas costas se misturando ao teu. ouvíamos blues - sempre os blues - e a única luz, além de a da rua que entrava quietinha pela janela, era a das velas que nos deixamos esquecer acesas. isso tudo fazia com que tudo aquilo parecesse ainda mais quente e junto. tu me dava (dá, ainda) ganas como ninguém mais - minha vontade de te morder-apertar-beijar-etc era (é, ainda) tão constante que quase ininterrupta.
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nunca te escrevi uma carta de amor - nem, acho, escreverei. não acho que seja isso, amor, o que eu sinto por ti, pelo menos não nesse sentido convecional, usual, quase-manjado. não acho que eu tenha estômago, coragem, paciência o suficiente pra poder te amar assim. tenho essa certa habilidade pra complicar as coisas, sabe, e não poder, assim, amar-verbo-transitivo-direto. difícil de explicar; sei que me perco - no sentido de ter vontade de e não resistir - em teu desenho. e que quero tuas cores no meu quarto-na minha rua-no meu mundo, mas sei também que não chega a dar daquelas dorzinhas no coração.
a intransitividade do meu verbo deveria tornar simples todo esse caos, mas parece só conseguir complicá-lo à medida que tequeromaisemais, mas não sinto nada demaisemais - não de verdade mesmo, com dorzinha e tudo. talvez se eu arranjar estômago, coragem, paciência eu consiga, sinta, tenha certeza. enquanto isso sigo te fazendo essas declarações-não-cartas-de-não-amor, numa tentativa (frustrada, é claro) de explicar a mim mesma o (por)que eu (não) sinto(, mas quero tanto).

04 novembro, 2008

interiores - II

foi entrando assim, sem mais nem menos, botando a porta abaixo e fazendo estardalhaço. largou as coisas em qualquer lugar, de qualquer jeito, e não se acanhou nem um pouco de ir até a geladeira e se servir de qualquer coisa para beber. tirou as almofadas e as tralhas-decorativas do lugar, tomou conta da minha cama, assistiu aos meus filmes, ouviu as minhas músicas. pegou minhas palavras para si e me encheu das suas como quem enche um copo de água. foi tanta a bagunça que, de repente, eu não sabia encontrar mais nada, nem mesmo meus próprios 'achos'.
sem meus achos costumo ficar meio perdida, meio sem saber das coisas de mim. fico sem saber se gosto ou se nem tanto, se quero ou se não faço tanta questão, se sim ou se não. me pego fazendo coisas bestas e fico com vergonha de mim mesma, perco a atenção e a capacidade de ser racional. tento, então, empilhar de volta os livros, guardar os discos e botar as almofadas no lugar, mas me parece esforço inútil: sempre depois de uns dois ou três tempos, no máximo, vem de volta misturando tudo e fazendo o mundo aqui dentro girar, como uma roda-gigante de parque que nunca desliga. entro em pânico, morro de dúvidas e não sei bem como agir; mas, ao mesmo tempo, me enche de ternura e de cor essa bagunça devastadora que me tira o chão. digo como única certeza que não há como adivinhar o logo: sempre fujo um tanto pro azul-sem-perigos.

tenho medo de revoluções internas.

12 agosto, 2008

mais um romance underground.

daí a gente sentou numa sarjeta qualquer da independência com os nossos copos de cerveja nas mãos (acho que era heineken ou stella artois - uma dessas que, pra quem vive de brahma e polar, são meio burguesas) e tu começou a falar. a cerveja - amarga - me descia muito bem e me mantinha levemente ébria enquanto ouvia teu discurso impressionante sobre mil coisas do mundo. reparei que tu tinha mãos grandes e bonitas (sempre reparo nas mãos) e que uma covinha se fazia presente na bochecha esquerda quando tu abria um sorriso tímido, a coisa mais querida do mundo. o cabelo levemente bagunçado e uma sombra de barba por fazer faziam com que tu ficasse menos menininho, mais homem. me olhava nos olhos como se me enxergasse a alma e me fazia, por muitas vezes, sentir a timidez que eu não tinha tomar conta de mim e fazer com que as minhas bochechas ficassem vermelhas. entendia um monte de música, livros e filmes e volta e meia me tirava as palavras da boca falando de algum jazzista ou escritor das antigas. gostava tanto quanto ou mais do que eu de discos de vinil e de filmes em preto e branco. teu leve sexismo me irritava e eu falava mil coisas pra discordar de ti, mas tua habilidade com as palavras me fazia quase suspirar e eu acabava deixando pra lá. o desenho da tua boca, o jeito como tu segurava o copo e como vez que outra botava o meu cabelo pra atrás da orelha quando caia no rosto fizeram parte dos pequenos detalhes que eu gravo pra sempre e me deram vontade de tar junto o tempo todo, bem pertinho. pensei que queria deitar num sofá contigo e ficar abraçada em ti, ouvindo tudo aquilo que tu tinha pra dizer e te dizendo coisas que me parecessem importantes. os nossos amigos que tavam na volta se enjoaram do diálogo inacabável – só a gente falava, quase que discutindo, sem dar chance pros outros – e foram fazer qualquer outra coisa. continuamos conversando por mais uns bons minutos – e os amigos iam e voltavam repetidas vezes – e cada vez mais tu me encantava com o teu jeito tão articulado e tímido ao mesmo tempo. não sorrir de canto de boca quando te olhava nos olhos se tornou uma tarefa impossível pra mim e, quando tu tocava meu ombro ou meu rosto, eu ficava dividida entre uma timidez bastante tensa e uma vontade quase incontrolável de te abraçar e trazer pra perto. numa pausa dramática de quase 30 segundos de a gente se olhando nos olhos bem de perto, um quase beijo é interrompido por alguém muito bêbado te pedindo um ‘careta’. daí a gente levanta pra pegar mais uma ceva, tu me abraça, me olha sorrindo e diz a frase da qual a gente tinha tirado sarro durante um bom tempo no começo da noite: “pra minha casa ou pra tua?”. eu, sorrindo de volta absolutamente boba, respondo a única coisa que cabia: “pra tua, ouvir aquele vinil da janis que vai mudar as nossas vidas pra sempre”. e assim foi.

26 julho, 2007

borboletas

era frio e depois. as borboletas derramavam o quarto com 'plins' daqueles brilhantes, mas não que fosse audível. não era, se assim não se quisesse. eu não queria - acho - mas insisitiam em entrar pelos ouvidos e poros e, quando vi, percorriam meu mesmo e estavam no estômago. quero dizer, a sensação voltara depois de tudo e comigo era assim: acontecia de súbito e de modo algum se forçava. quisera eu fazer escolha, mas não, não posso e quero o tempo todo junto, se não dói! vou pro meio da rua e grito em silêncio e fico à beira de ataques dos nervos. preciso por pra fora as borboletas, cochichantes em pares colidindo em meu estômago. essa espera acaba comigo - e as borboletas multiplicam-multiplicam-multiplicam em infinitas pê-gês - e vou explodir de borboletas, acho, em segundos. aqueles segundos bordô, vermelho-sangue como um corte, que agonia!, até amanhã então me matariam. mas pensar no tempo depois dos segundos, depois de depois, me põe riso no rosto, colorido como já não era - desbotou sem borboletas, surpresas e inesperados. o coração batia rápido, acho que as borboletas iam pra lá também e me escapavam pelas entranhas pra todo mundo ver: e era bonito. acho que o amor nem move o mundo nada. as borboletas é que movem.


nota: ando sem borboletas há tempos.