19 Maio, 2010

breve prosa em sol maior.

Criei coragem e fechei a porta que, havia muito, permanecia aberta atrás de mim. Então foi tudo escuro. Nada podia ver. Tudo que tocava parecia disforme e sem sentido e o chão sob meus pés não era palpável. A sensação era de que, a qualquer momento, pisaria em um espaço formado por areia movediça e sentiria o fosso tomar-me lentamente do ar respirável. Havia saído do que há tempos me era habitual. Definitivamente não estava mais em um ambiente conhecido. Podia sentir as sombras me rodeando e, por vezes, cacos de vidro, pregos e brasas me arrasando a sola dos pés. Era difícil prosseguir, mas eu insistia. Minha insistência resultou em arranhões e feridas abertas nas quais parecia que me enfiavam o dedo com vontade, repetidamente. Depois de um tempo, senti as feridas se fecharem - dando lugar a pequenas cicatrizes - e passei a enxergar um pontinho de luz lá adiante. Corri em direção a ele, percebendo se tratar de, não um, mas diversos buracos de fechadura através dos quais transbordava aos pouquinhos uma luz quente, de veludo. Tentei a chave pendurada em meu pescoço em cada um deles, até que pude abrir uma porta. Era uma grande e bela porta - pude ver bem quando a abri e a luz entrou -, muito diferente da que eu fechara lá atrás. Atravessei-a sem muita confiança, mas certa de que o que viria me seria mais agradável aos sentidos do que o que havia deixado às minhas costas. A luz, amarela e calorosa, acariciava meu rosto de leve como se fosse brisa quente de verão. E me cegava. Nada podia ver novamente, mas a sensação era muito distinta. Era macio e quente e me doía de tão bonito. Não fazia ideia de onde pisava, mas me sentia acarinhada e tranquila. Por vezes havia dúvida e algum tipo de desconforto, mas logo vinha de novo a sensação com cores de sol e me invadia e tomava meu corpo para si. O ar podia, eventualmente, ser pesado e difícil de respirar, mas senti que, de alguma forma, era válido o esforço. Agora já até enxergo alguns contornos. Me assusto com eles vez que outra, mas sigo vagando com calma, tateando com as pontas dos dedos, e descobrindo aos poucos o que essa luminosidade me traz. Não tenho mais forças para ficar longe dela, eu acho.

(ao som de Sérgio Sampaio - Magia Pura)

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