22 julho, 2007
ilusões
estava na janela quando ele chegou em casa. ficar ali parada, observando a irrefreável selva de pedras lá embaixo, ajudava-a a pensar. a cama permanecia desarrumada e a xícara vazia de café estava sobre a mesinha. ele disse que ia fazer mais café, perguntou se ela também queria. disse que sim sem muita convicção, como quem não dá atenção à pergunta. vinham da cozinha duas xícaras meio-cheias de café. "meio-vazias", pensou. ele a abraçou e deu-lhe um beijo ao qual ela respondeu sem muito entusiasmo. largou a xícara sobre a mesinha e acendeu um cigarro, voltando a olhar pela janela. ele perguntou se ela não tinha saído de casa naquele dia. respondeu que não. ele disse um "que coisa" e começou a contar qualquer coisa sobre a matéria que lhe tinham dado para escrever no estágio. por mais que tentasse, não conseguia prestar atenção no que ele dizia. passara o dia pensando sobre eles, sobre o que sentia. sentia-se mal, enganando a ele e a si mesma, mas toda vez que lembrava de como ele era uma pessoa maravilhosa e de tudo que tiveram juntos, desistia da idéia e não mencionava qualquer coisa. naquele dia, porém, acordara com um sentimento de vazio que quase lhe rasgava o peito. resolveu falar, desistiu, resolveu de novo umas quantas vezes. para dificultar, desde que chegara em casa ele só fizera lhe fazer agrados. interrompeu abruptamente a fala do namorado dizendo que precisava de um tempo. lhe escapara de repente e não pôde nem pensar duas vezes: quando viu, já tinha dito. ele, incrédulo, quis saber por que e se havia outra pessoa. havia, mas não havia. havia, sim, em pensamento, mas não de fato. respondeu que não, que a única pessoa era ele, mas que precisava de um tempo e de certeza. sentiu que o choro tingia-lhe a voz de amarelo e, então, abraçou-o como já não fazia havia tempos. ele, ao recobrar a fala, disse que entendia, que ia então passar uns dias na casa de um amigo. fez que sim com a cabeça e lhe assistiu juntar uma meia dúzia de roupas, a escova de dentes e o celular. abraçaram-se forte ao lado da porta já aberta. pediu desculpas e ele disse que não havia nada a ser desculpado, que ela não havia feito nada de errado. fechou a porta e voltou à janela. acendeu mais um cigarro, olhou em volta, suspirou. apagou o cigarro, pegou o porta-retratos de cima da mesinha e jogou longe. sentia-se a pior das pessoas, a mais egoísta e burra. pensou em ligar, mas não conseguiu. ficou ali, sozinha, pensando em como ele quase a fazia esquecer quem a fazia manter acesas todas as incertezas. ligou e pediu pra ele voltar. assim que ele chegou, se abraçaram, conversaram e ele a fez se sentir tão bem que ela queria parar o tempo ali. acomodou o corpo junto ao dele na cama quentinha: embora não tivesse as tais certezas, se sentia muito bem assim.
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3 comentários:
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;*
Rê
aiai..uns com tantos amores,e eu com tao poucos..ô vida triste
beijo
o que eu estava procurando, obrigado
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